Desde 1989, o Brasil teve debates presidenciais na televisão marcados por ausências estratégicas: candidatos líderes nas pesquisas que preferiram não debater, emissoras que cancelaram diante da falta de interesse, discursos vazios sobre "fugir do confronto". Mas em nenhum desses anos — nem em 1989, quando Collor faltou aos 6 debates; nem em 2006, quando a Globo levou adiante o debate da "cadeira vazia" mesmo sem Lula; nem em 2018, quando Bolsonaro faltou ao último encontro — o Judiciário havia determinado quem entra, quem sai ou como o palco deve ser montado.

Em 2026, isso mudou. E o caminho até o cancelamento do debate da Globo, nesta quinta-feira (1º/10), reúne decisões de origens diferentes que se somaram no mesmo dia.

A desistência de Lula

Horas antes da notificação formal à emissora, Lula já tinha outro compromisso agendado: uma entrevista ao podcast Flow, marcada para o mesmo horário do debate. A decisão de não comparecer ao encontro da Globo seguiu a mesma estratégia usada por ele em 2006, quando também evitou os debates de primeiro turno.

A negativa que veio do próprio TSE

Em paralelo, o partido Missão, de Renan Santos, pedia à Justiça Eleitoral uma vaga no debate após a desistência de Lula. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, negou o pedido na quarta-feira (30/9) — o Missão não atinge o número mínimo de 5 deputados federais exigido por lei. O Missão tentou um segundo caminho, uma ADPF no STF, mas a ministra Cármen Lúcia nem chegou a analisar o mérito, por considerar o instrumento inadequado.

Quem derrubou a decisão foi outro partido

Foi aqui que a história ganhou uma reviravolta pouco notada: quem conseguiu reverter a negativa do TSE não foi o próprio Missão — foi o Solidariedade, partido do deputado Paulinho da Força, que pediu ao decano do STF, ministro Gilmar Mendes, que tornasse "sem efeito" a decisão de Nunes Marques. Gilmar atendeu horas antes do debate, mandando a Globo incluir Renan Santos "na vaga aberta pela desistência de Lula".

Segundo reportagem do Poder360, essa movimentação se encaixa numa disputa de bastidores dentro do próprio STF, entre um bloco mais próximo do Planalto (Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin) e outro mais distante (Luiz Fux, Nunes Marques, André Mendonça) — justamente os dois ministros que hoje comandam o TSE. Paulinho da Força tem histórico de atuar em sintonia com a ala de Gilmar, e já havia protocolado, na mesma semana, um pedido de impeachment contra Nunes Marques, Mendonça e Fux.

O outro lado também acionou a Justiça

A segunda decisão que pesou no cancelamento partiu de outro lugar: foi a própria coligação de Lula quem pediu à ministra Estela Aranha, do TSE, que proibisse a Globo de exibir um púlpito vazio com o nome do presidente, sob o argumento de que a imagem vazia causaria dano desproporcional ao candidato a poucos dias do primeiro turno. O pedido foi aceito.

Com as duas decisões somadas, a Globo classificou o cenário como "insegurança jurídica" e cancelou o debate por completo.

A reação

O governador Romeu Zema (Novo) chamou publicamente a decisão de Gilmar de "desrespeito total às leis". Ronaldo Caiado (PSD) culpou Lula pelo desfecho. Já o próprio Lula respondeu, sem citar nomes, que "não pede favores a ministros do Supremo".

Onde está a democracia?

A pergunta que o título propõe não tem resposta fácil. De um lado, há quem veja nisso um Judiciário que extrapolou sua função, com um ministro do STF atropelando uma decisão específica da própria Justiça Eleitoral horas antes de um debate — um precedente que levanta dúvidas sobre a autonomia das emissoras organizarem seus próprios eventos. De outro, há quem defenda que garantir pluralismo político e proteger a imagem de candidatos em reta final de campanha é função legítima da Justiça Eleitoral, ainda que o resultado prático, dessa vez, tenha sido o cancelamento total do debate.

O que não há dúvida é isto: nos 37 anos de debates presidenciais na TV brasileira, nunca antes o Judiciário havia determinado, horas antes da exibição, quem senta à mesa e como o palco deve ser montado. Cabe a cada leitor tirar sua própria conclusão sobre o que essa semana revela — e sobre o que ela custa à própria ideia de debate público.

Com informações de: Poder360, O Globo, G1, Nexo Jornal, BBC Brasil e Brasil Agro.